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Não sou homossexual, sou bicha! – Giba
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Não sou homossexual, sou bicha!

Não sou homossexual, sou bicha!

Já ocorreu mais de uma vez alguém me censurar por eu usar o termo bicha. Cada vez que quero diferenciar os gueis femininos dos masculinos recorro ao termo. Às vezes, antes de citar a palavra bicha, eu já faço uma ressalva explicando o motivo do uso.

A palavra bicha é uma injúria, um termo ofensivo, odioso. Até os anos 80, por exemplo, não havia se popularizado no Brasil o termo homossexual e as pessoas usavam os termos macho ou bicha para se referir às masculinidades. O macho era o homem que penetrava mulheres ou outros homens; a bicha era o homem que era penetrado.

Bicha era/é a forma de ofender alguém que não atendia/não atende ao ideal de masculinidade: macho, forte, viril e penetrador. A bicha traia/trai a masculinidade e a sociedade dos homens. A questão não era a prática sexual entre homens, mas a desconsideração social a um homem que é penetrado ou mantém outro comportamento considerado feminino.

Bicha é uma ofensa com potencial não apenas enunciativo, mas produtivo, na medida em que, enquanto ofensa, serve como modo de coagir os sujeitos através da ameaça de desrespeito, deslegitimização e desumanização. Cada vez que o termo é acionado é como se disséssemos: “Se você não for macho, vamos te chamar de bicha; ninguém vai te respeitar; você será sempre uma piada e nós vamos te ofender – sempre!”.

Termos injuriosos são modos de desqualificar pessoas e isso já ocorreu/ocorre com índixs e negrxs. Com relação aos indígenas, Colombo, ao chegar nas Américas, achou que estava na Índias e chamou as pessoas que aqui estavam de índios. O termo associa xs indixs a outros termos como: selvagens, bárbaros e incivilizados.

Durante muito tempo, indígenas tentaram se dissociar desse termo preconceituoso. Nos anos 70 desistiram e resolveram utilizar o termo para criar um laço de solidariedade e parentesco diante de tão grande diversidade étnica e cultural. Índix passou a ser assumido por esses sujeitos como uma forma de luta e na tentativa de positivar o termo.

O termo raça também é pejorativo. Foi criado com uma tentativa de representar os europeus como superiores através da ideia que a raça negra é doente, suja e sem inteligência. Ou que xs negrxs não são tão evoluídos como os europeus brancos. Concepções que foram produzidas também por uma ciência racista.

Sem ter como provar a existência de raças e sabendo o quanto esse termo era prejudicial aos negrxs, passamos a substituir o termo por etnia, com uma vertente mais cultural e menos biológica. O movimento negro, no entanto, resolver assumir o termo como um objetivo político, não apenas de união e solidariedade entre sujeitos, mas também na tentativa de positivar as identidades negras. Raça é utilizado com fins políticos e não com uma aderência ao determinismo biológico.

Sem tradução para o português, o termo queer também passa a ser utilizado por alguns sujeitos, sendo queer sinônimo de estranho, perverso e doente. A ideia era assumir a injúria como forma de esvaziar o potencial negativo do termo ou positivá-lo.

Podemos questionar os limites da utilização de termos pejorativos como forma de esvaziamento da injúria ou como modo de positivar identidades, tal como diz o psicanalista Jurandir Freire Costa, que não acredita que seja possível retirar o sentido negativo da linguagem. Ele propôs inclusive a troca do termo homossexual por homoerotismo. No entanto, fugir e escapar das palavras e seu potencial de subalternizar sujeitxs é complexo e, por isso, muitos assumem a injúria, por não conseguir escapar dela.

Assim também foi com o termo “favela”, hoje substituída por comunidade, na tentativa de fugir da associação com a marginalidade. Se antes muitos sujeitxs negavam morar na favela, hoje muitos assumem o termo e o positivam, como por exemplo, na música “Sou favela”, do Grupo Parangolé.

Certa vez disseram à Gabriela Leite, ativista, que ela não poderia ser feminista por ser puta e ela respondeu: “Sou uma puta feminista!” Nesse vídeo ela diz preferir a palavra puta ao invés de profissional do sexo, e segue na mesma lógica de enfrentar o estigma.

Quando um sujeito é apontando na rua como puta, bicha, favelado, etc, isso caracteriza um ato odioso, violento e subalternizante. Se vitimizar e sofrer por isso é dar forças ao agressor. A auto-referência como bicha ou puta é um ato político. O agressor perde seu poder de ofensa.

O termo bicha pode ser utilizado de diversas formas atreladas à sonoridade, intenção, etc. Pode ser dito de forma odiosa ou de forma libertadora. Depende muito de quem diz.

O termo homossexual é tão associado à masculinidade, cientificidade, virilidade e higiene. Homoafetivo, pior, parece marca de sabonete, pelo menos da forma como passou a ser usado e desvirtuado a partir do casamento entre pessoas do mesmo sexo, em especial pela advogada Berenice Dias (antes disso, pesquisadores como Denilson Lopes usavam o conceito para demonstrar que as pessoas heterossexuais também possuem relações homoafetivas). Agora bicha, bichinha, viadinho, como diz Gabriela Leite sobre a palavra puta: é sonora e quente. Cada vez que alguém grita: “Sou bicha mesmo, meu amor!”, é libertador.

Como diz Ferdinando: – Viaaaaaaado!

 

Por Gilmario Nogueira

Leo Ribeiro

leoorcruz@hotmail.com

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