Top
G0ys, héteros-passivos-flexíveis e o fim da heterossexualidade. – Giba
fade
192
post-template-default,single,single-post,postid-192,single-format-standard,eltd-core-1.1.1,flow-ver-1.3.6,,eltd-smooth-page-transitions,ajax,eltd-blog-installed,page-template-blog-standard,eltd-header-vertical,eltd-sticky-header-on-scroll-up,eltd-default-mobile-header,eltd-sticky-up-mobile-header,eltd-menu-item-first-level-bg-color,eltd-dropdown-default,wpb-js-composer js-comp-ver-5.0.1,vc_responsive

G0ys, héteros-passivos-flexíveis e o fim da heterossexualidade.

G0ys, héteros-passivos-flexíveis e o fim da heterossexualidade.

A cada dia surgem novas identidades e classificações sexuais. É um movimento que vem das vivências e experiências, ao contrário das identidades peritas que nascem no sistema médico/psiquiátrico europeu.

Enquanto o sistema médico encaixa as pessoas em suas nomenclaturas, com fronteiras definidas e associações com o modelo saúde/doença ou normal/patológico, nas vivências do cotidiano, as pessoas tentam renomear as suas vivências e redefinir parâmetros.

Essas redefinições são subversivas porque extrapolam os limites peritos, mas podem reiterar normas e valores sociais. No que tange a sexualidade há quase sempre hipervalorizações da masculinidade que não tem nada de subversivo em corpos tidos como de “homens biológicos”, mas continua sendo opressor com determinados sujeitos.

Quando publiquei um texto sobre heteropassividades, muitos me acusaram de criar, inventar identidades. Aliás, é comum dizer que nós, dos estudos queer, fragmentamos as identidades e que somos um perigo às políticas LGBT. Como se tivéssemos esse poder.

A verdade é que os sujeitos, no dia-a-dia, têm experiências que ultrapassam os limites hetero x homo. Esses sujeitos estão “cagando e andando” para nós que estudamos a sexualidade. Quando publicamos algo sobre essas sexualidades, é sempre um movimento atrasado, posterior às vivências e não o contrário.

Pois eis que agora surgem de forma midiática os G0ys, os homens que mantêm práticas sexuais periféricas, isto é, sem penetração com outros homens e não se consideram gays. Não aderem o que chamam de cultura gay ou às práticas que envolvem penetração.

Surge também críticas dos caciques do movimento LGBT a essas nomeações, que dizem: “A causa dessas identidades é o preconceito ou homofobia contra os gays”, ou seja, se não houvesse homofobia, eles se diriam gays. Até certo ponto estão certos, pois esses homens querem manter o status heterossexual, senão não precisariam deixar claro que não são gays, não podem ser confundidos com gays, mas heterossexuais-passivos ou heterog0ys.

Mas é só isso? É tudo que podemos dizer sobre esses sujeitos? São gays enrustidos? Soa inocente e simplista essas explicações. Aliás, as explicações soam tão menos subversivas que as próprias nomeações desses sujeitos. Na verdade, parte do movimento LGBT (de onde vem essas “teorias”) é tudo, menos subversivo, pois:

1-    Acreditam que o mundo se divide em hetero e homo. Tomam essas identidades como verdade, posições naturais e não discursivas. Acreditam que essas duas palavras têm a capacidade de nomear toda realidade ou sexualidade.

2-    Vigiam as fronteiras entre hetero e homo, marcando quem é quem num campo complexo que é a sexualidade. São ávidos a definir quem é o que e, principalmente, nomear quem é gay.

3-    Não conseguem pensar uma proposta política que não passe pela identidade gay e perdem a chance de refletir onde esses sujeitos que não aderem ao binarismo tradicional podem ser parceiros e o mais importante, o quanto eles nos mostram que as identidades são ficções, sujeitas as novas interpelações, multiplicidades (o que é diferente de fragmentações), etc.

É por isso que esses sujeitos temem/rejeitam os militantes (palavra que define bem essa vigilância da sexualidade). Sobre isso, lembro que um amigo comentou que ninguém falava com ele no aplicativo de caça scruff. Ele tinha inserido no perfil que era militante LGBT. Militância não rima como subversão, nem com sexualidade pós-identitárias, mas com encaixe, classificações binárias e abichornamento (palavra que aprendi com Carlos Henrique, que significa o ato de “aviadar”).

Os sujeitos políticos, atuantes e que defendem os direitos humanos lidam bem com o modo como o outro encontra um lugar humano no mundo, em suas nomeações, mas os militantes defendem o tradicional e são inimigos das sexualidades contemporâneas.

Voltando aos heteros*, ao mesmo tempo que esses sujeitos subvertem as normas de identidades, pois o que se supõe é que a heterossexualidade seja uma identidade pura, que seu desejo seja somente para o sexo oposto, o que a prática cotidiana mostra é que ela é múltipla, diversa e também, embora não obrigatoriamente, atravessada por desejos por pessoas do mesmo sexo.

Mas nem os g0ys, nem os heteros-sei-lá-o-que são tão subversivos assim, pois reiteram normas de masculinidade, isto é, experienciam uma sexualidade contrária às normas, mas lutam por manter um padrão de masculinidade que é hierarquizante e violenta com outros sujeitos. Essas “novas” identidades não refazem o cenário hierárquico em que o homem masculino e branco é considerado como de maior valor.

Mas se romper com a masculinidade dominante for um padrão para julgamento do que é subversivo, os homossexuais não estão em melhor posição, pois é comum os gays rejeitarem parceiros afeminados. Então o que há de tão subversivo na identidade homossexual em comparação a esses homens? Apenas o fato de assumir uma identidade, um lugar perito? Nem todos os que assumem esse lugar se comprometem com a luta pelos direitos humanos, com os direitos LGBT, e menos ainda contra o racismo e opressão às classes populares ou violências de classe.

E se essas classificações são modismos, e os sujeitos logo desistirão dessas nomeações, como dizem alguns militantes profetas, o ato de dividir, renomear é perene e é o que é mais importante. Os sujeitos têm tentado, a partir de suas vivências, e não de nossos estudos, refazer a paisagem das sexualidades. Esse refazer não sai de moda, e é esse ato que devemos tomar como válido, a recusa pelo binarismo tal como idealizado no século XIX gagueja desde muito tempo a dizer que essa divisão é um equívoco.

Hetero-passivo não existe, G0y não existe, tanto quanto o heterossexual e o homossexual também não. O fato de que algumas identidades permanecem por décadas é justamente pela força dos sistemas especialistas e militantes que conservam a pureza da ficção. Existem como normas, não como realidades naturais.

Enquanto isso, nesse movimento fragmentador, é possível dizer que a heterossexualidade tradicional, tal como concebida, é passado, é morta, ou, no mínimo, está em declínio. Essa heterossexualidade existe como ideal, como norma, obrigação, exigência, mas no dia-a-dia as coisas andam às avessas. E não há porque lamentar.

Essa heterossexualidade é prejudicial aos gays, pois exigem que se adequem a identidade esperada e é prejudicial também aos heterossexuais, pois limitam suas experiências, castram seus corpos e os privam de outras vivências. Vivam os heteropassivos, os g0ys, os bolo-doidos, tudo mais que multiplicar e possibilitar uma vivência mais libertária.

Viva o movimento!

Por Gilmario Nogueira.

Resultado de imagem para identidades sexuais

Leo Ribeiro

leoorcruz@hotmail.com

No Comments

Post a Comment