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A homofobia é um problema de todos – Giba
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A homofobia é um problema de todos

A homofobia é um problema de todos

No dia 24 de junho de 2012, dois irmãos, gêmeos, foram agredidos por oito homens na cidade de Camaçari. Uma das vítimas não resistiu aos ferimentos. José Leonardo morreu, deixando a namorada grávida. No ano passado, em São José do Rio Preto (a 175 km de Ribeirão Preto-SP), um grupo de jovens agrediu um homem de 42 anos e seu filho de 18. Os dois casos tiveram a mesma motivação: homofobia contra sujeitos que foram confundidos com homossexuais, uma vez que demonstram afetos em público.

Se, antes, o entendimento era de que a homofobia era uma modalidade de violência dirigida apenas aos homossexuais, esses acontecimentos deixam evidente que os heterossexuais também são vítimas de homofobia. Esses crimes apontam para uma análise mais cuidadosa na forma como concebemos a sexualidade, as violências em torno dela e as políticas adotadas para solucionar a questão.

O primeiro ponto a considerar é que vivemos em uma sociedade em que se espera que todos os sujeitos sejam heterossexuais, isto é, a heterossexualidade é compulsória. A heterossexualidade passa a ser uma exigência para todos os corpos, e os que não se adéquam a ela não são considerados dignos de viver. A partir do momento em que a ciência deixou de considerar a homossexualidade como uma doença, abre-se uma brecha social para existência de outros sujeitos, isto é, as pessoas não são obrigadas a serem heterossexuais, mas devem viver suas vidas como tais.

Essa obrigação de que todos se comportem como heterossexuais, tendo ou não práticas heterossexuais, é o que chamamos de heteronormatividade. Nessa ordem social, dois homens ou duas mulheres até podem vivenciar uma experiência afetivo sexual junt@s, mas não em público. Os afetos, paixões e sentimentos expressos publicamente devem ser dirigidos ao sexo oposto. Entende-se também que homem tem que ser másculo e viril – mulher tem que ser feminina.

Vivemos sob o domínio dessas duas normas: a heterossexualidade compulsória e a heteronormatividade, e as violências derivadas delas atingem todos os sujeitos, independente da orientação sexual, pois: a vítima não é uma pessoa isolada, tem família, amigos, logo deixa marcas em todo um círculo social; estamos sendo obrigados a camuflar nossos afetos, seja com parceir@s, amig@s ou familiares.

Se antes era preciso reprimir as experiências sexuais, sublimá-las, hoje estamos sendo obrigados a reprimir os nossos afetos.

Assim, a ideia que a homofobia é um medo, ódio e aversão a homossexuais mostra-se limitada. A concepção de ódio e aversão associados à fobia faz crer que se trata de uma doença, uma resposta orgânica, no entanto, o que chamamos de homofobia é uma resposta social, produzida por uma série de normas que hierarquizam sujeitos. Não se trata de uma resposta do indivíduo, mas de um coletivo.

Precisamos discutir também que, ao considerarmos a sexualidade como um atributo natural humano, aprendemos assim que há um modo não natural de expressá-la. Logo, alguns sujeitos serão patologizados, considerados doentios e perversos. A naturalização é motor da divisão entre o normal e anormal, enquanto que a concepção de sexualidade construída socialmente enfatiza que a normalidade é uma invenção.

Essas posições naturalizantes dividem os sujeitos em duas categorias distintas: heterossexualidade e homossexualidade. Supõe-se que cada um de nós tem dentro de si uma substância heterossexual ou homossexual ou, talvez, bissexual. Essa oposição nos separa, nos hierarquiza e procede a dominação simbólica de um grupo sobre o outro.

Ao entendermos que cada sujeito é diferente um do outro, isto é, somos singulares, e ao mesmo tempo temos pontos em comum independente das nossas orientações sexuais, saímos desse campo de guerra organizado a partir da sexualidade. A naturalização nos empurra para uma oposição, enquanto o oposto nos coloca em contato uns com os outros, amplia-se as possibilidades de empatia.

Essa divisão binária da sexualidade faz crer que o preconceito e discriminação sexual é um problema de uma minoria, enquanto estamos falando do livre direito de expressar os afetos, independente da orientação sexual. Assim como a preservação do meio ambiente não é um problema dos ecologistas, a homofobia não é um problema dos homossexuais. Estamos falando de laços humanos, que se expressam fora dos limites dessas categorias inventadas.

Não estamos falando apenas no direito de homens realizarem-se sexualmente com outros homens, mulheres se realizarem com mulheres. Precisamos pleitear o direito dos sujeitos se expressarem com códigos de masculinidades, feminilidades, em suas infinitas combinações, independente do sexo ao qual nos referencializamos.

É preciso também  repensarmos nossa resposta ao problema. Precisamos incluir os heterossexuais nessa empreitada. O modelo de movimento social, ancorado em quatro letras, limita nossas respostas. Precisamos juntar o H de heterossexuais na luta, assim como muitos outros sujeitos que estão fora da sigla LGBT. Precisamos de mais gente, mais humanidade e menos disputas por “caixinhas”. São esses alguns dos grandes desafios que devemos enfrentar na luta por um mundo que respeite e aprenda com a diversidade sexual e de gênero.

 

Por Gilmaro Nogueira

Leo Ribeiro

leoorcruz@hotmail.com

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